a mesa que ninguém senta mais.

Por Portal Opinião Pública 24/09/2026 - 15:53 hs
Foto: Divulgação

discordância à mesa

a mesa que ninguém senta mais.

entre gritos e sussurros, meus pais me ensinaram que discordar de alguém não precisa ser motivo para deixar de sentar à mesma mesa.

na casa dos meus pais, o jantar começava sempre com a mesma pergunta: o que você aprendeu na escola hoje. e eu, nerd convicto, respondia com uma precisão quase irritante, matéria por matéria. o interessante era que, em história, eles sabiam mais do que eu. os dois eram muito inteligentes, cada um à sua maneira, mas tinham visões praticamente antagônicas sobre tudo.

meu pai, médico e ex-militar, dava sua opinião sobre o jornal com uma calma de lorde inglês. minha mãe, socióloga e empresária, discordava do jeito oposto: pequena, ligada no 220 volts, quase esperneando de tanta convicção. ele impassível, ela pirotécnica, discutindo política com o garfo na mão, diante de um filho que prestava atenção em cada palavra.

o contraste era hilário. minha mãe gritava o argumento inteiro e meu pai respondia baixinho, como se estivesse tomando chá num clube britânico. nenhum dos dois vencia, porque a discussão nunca teve esse objetivo. era só o jeito de conversar deles.

demorei anos para entender que aquilo era uma aula. aprendi que dava para ser muito inteligente e discordar de alguém igualmente inteligente sem transformar isso em guerra. que opinião contrária não precisava terminar em ruptura.

hoje penso nessa diferença: existe discordância de opinião, de leitura de mundo, de interpretação de fato. e existe posição que fere a dignidade de outro ser humano. para mim, são categorias diferentes.

minha mãe gritava, meu pai sussurrava, e a mesa continuava lá no dia seguinte, inteira.

@enricopierroofc